22 de agosto de 2011

Medicina em Tons Coloridos

Longe dos livros técnicos e sem o “esteto” no pescoço, com o rosto coberto por maquiagens alegres, o jaleco ganha tons coloridos, e serve de fantasia para o grande astro do projeto: o Doutor Palhaço.

São alunos dos cursos de Medicina, Enfermagem, Nutrição, Terapia Ocupacional, Fisioterapia e Fonoaudiologia da USP, que, com o lema “Seja a mudança que você quer no mundo!”, de Mahatma Gandhi, desenvolvem o Projeto Mad Alegria, uma iniciativa para realçar a importância da humanização na relação entre os profissionais de saúde e os pacientes.

Por meio da figura do palhaço de hospital, os alunos se propões a realizar visitas a instituições de saúde na busca da amenização do sofrimento nesses ambientes. Além disso, também pretendem desenvolver a afetividade, sensibilidade e abertura para a escuta e o diálogo, numa tentativa de barrar a racionalização excessiva entre profissional da saúde e paciente.
O projeto existe desde 2005, mas ficou desarticulado por cinco anos até voltar à ativa no ano passado, quando um grupo de alunos se uniu para formar turmas de Doutores Palhaços e dar mais colorido e leveza para as centenas de pacientes que passam dias nos quartos das unidades médicas da USP.

Segundo Amanda Manso Oliveira, aluna do segundo ano do curso de Terapia Ocupacional, o objetivo do Mad Alegria é treinar os participantes na arte do clown, mas buscando em cada lição princípios que educam o estudante para ter um comportamento mais humano e menos técnico, preocupado somente com a patologia do paciente.

Antes de esses “doutores” visitarem os quartos dos pacientes, eles recebem formação através de um curso que tem duração semestral, com aulas teóricas e práticas. No final, passam por um estágio nas dependências do Instituto do Câncer do Estado de São paulo (Icesp), voltado aos pacientes adultos. A partir daí estão aptos a atuar como Doutores Palhaços.

A coordenadora do projeto, professora Maria Aparecida Basile, do Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da USP, afirma que a finalidade não é formar clowns que contam piadas e levam pacientes e equipe técina às gargalhadas, mas sim dar aos alunos recursos para entreter um paciente, que pensa o dia todo em sua doença, desviando sua atenção sem, contudo, esquecer o sofrimento que a doença traz. “O clown é, antes de tudo, um companheiro do paciente, que o ouve com atenção, dá valor às suas queixas, mas sabe como convencê-lo de que seus problemas são muito menores do que parecem ser”, ressalta.

Histórias – Outra ação importante do Projeto Mad Alegria são as aulas de contação de histórias, permitindo ao participante atuar também em enfermarias infantis. O curso conta com instrutores profissionais experientes, com carreira dedicada a ensinar e treinar as pessoas a se comunicar melhor, entretendo e divertindo o outro.
Amanda afiurma com convicção que, com o Mad Alegria, o aluno se torna um profissional diferenciado. “O principal resultado é que o aluno se entrega aos pacientes como um personagem carismático e companheiro, que descobre existir dentro de si ao participar do projeto Mad Alegria.”
A professora Maria Aparecida conta que a figura do palhaço é o facilitador do processo de abordagem. “Ao chegarmos vestidos normalmente ou como profissionais de saúde, dificilmente o paciente se abre para contar suas dificuldades e sofrimentos. Com a fantasia de palhaço, ele se sente mais solto e fica feliz em ver que também seus acompanhantes estão alegres com a intervenção do Doutor Palhaço.”
A visita do Doutor Palhaço dura de 15 a 20 minutos por quarto. O atendimento é semanal para cada grupo de dois ou três estudantes. “Os Doutores Palhaços passam aproximadamente três horas dentro do hospital e cada dia visitam um andar”, explica Amanda.
O trabalho dos alunos da USP não é novidade, pois há muito tempo os Doutores da Alegria praticam essa atividade pelos hospitais de São Paulo. “O importante de replicarmos essa ideia”, explica Maria Aparecida,”é porque ela desenvolve no estudante a capacidade de criar empatia entre aluno e paciente, facilitando seu relacionamento com ele e seus familiares e tornando, no futuro, seu trabalho mais humano.”
Para Amanda, o importante do Mad Alegria é a capacidade de fazer o aluno enxergar que ele não é dono do saber, que não precisa criar distanciamento do paciente somente porque é médico. “O aluno que passa pelo projeto não vê mais o paciente apenas como uma patologia, e sim como um indivíduo que necessita de ser tratado com mais atenção e carinho. E que, muitas vezes, isso pode acontecer apenas com um sorriso ou uma abordagem alegre”, explica Amanda.

Pesquisa – Além do atendimento diferenciado aos pacientes, o projeto também se preocupa com a pesquisa. Segundo o aluno Gabriel Henrique Beraldi, do terceiro ano de Medicina da USP e diretor de Pesquisa do projeto, serão entrevistados pacientes, alunos e equipe técnica do hospital para saber como um projeto de extensão pode ajudar na habilidade de comunicação de todos os envolvidos.
Beraldi conta que há uma corrente mundial pela humanização da medicina e todos os outros serviços de atendimento à saúde. Por isso, o projeto Mad Alegria tem importante papel na formação de profissionais mais humanizados no atendimento ao paciente dentro dos hospitais da USP.
Para ele, a formação em clown se traduz em habilidade pessoal e potencial para se comunicar em todas as situações da vida. Aprende-se a ver os problemas de forma mais positiva e expandem-se as relações pessoais, acrescenta.
O projeto pretende futuramente ser autossustentável, ao contar com os alunos já formados no curso de clown para multiplicar os Doutores Palhaços. Conta com apoio da diretoria e do Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina, da Comissão de Cultura e Extensão Universitária e da Fundação Faculdade de Medicina

 

 

Matéria publicada pelo Jornal do Campus.